John Wesley e George Whitefield foram contemporâneos e chegaram a trabalhar juntos, mas em 1740 John pregou talvez o seu mais controverso sermão. Os conteúdos do qual levaram Whitefield a responder por carta privada que mais tarde veio a ser publicada. E provavelmente causou em parte a separação do movimento metodista décadas mais tarde.

Ao estudar este evento na história da Igreja fui desafiado a considerar a forma que nós como cristãos discordamos uns com os outros, apesar de terem tido uma disputa grande e pública, eles conseguiram manter um clima de respeito mútuo e apreciação pessoal pelo trabalho do outro.

O sermão, nº 128 intitulado Free Grace pode ser encontrado aqui (original) ou aqui (traduzido).

A carta de Whitefield aqui (original) ou aqui (traduzido)

O Sermão de Wesley

O sermão que causou este cisma, foi pregado de acordo com o próprio Wesley por decreto divino recebido pelo lançamento de sortes. Ele foi pregado duas ou três vezes e foi publicado umas quantas vezes também. Nas versões impressas ele era acompanhado pelo gigantesco hino de 36 stanzas de Charles Wesley “Universal Redemption”.

Wesley neste sermão atacou a doutrina da predestinação e eleição, a estrutura deste sermão pode ser resumida desta forma:

  1. (A predestinação) torna a pregação fútil
  2. Retira a motivação para perseguirmos santidade
  3. Tende a criar desdém pelos descrentes
  4. Tende a destruir o conforto da religião
  5. Destrói zelo pelas boas obras
  6. Torna revelação cristã desnecessária
  7. Torna revelação cristã contraditória
  8. Representa o Senhor como dizendo uma coisa e fazendo outra

Este sermão e o ataque à doutrina da predestinação e eleição é bastante áspero. Ele pregou a partir de Romanos 8 sem no entanto fazer qualquer tentativa de contextualizar a passagem e de facto ele não faz qualquer referencia ao texto durante o sermão. O sermão de Wesley é cheio de retórica mas vazio de conteúdo, não passa de um mero apelo emocional ao invés de tentar raciocinar os seus pontos a partir da Escritura.

A Carta de Whitefield

Whitefield por esta altura estava na America, aliás alguns historiadores afirmam que talvez derivado a covardia ou respeito, Wesley terá adiado pregação deste sermão até partida de Whitefield para a America para não ter de o pregar ou publicar enquanto Whitefield ainda se encontrasse em Inglaterra.

Alguns meses mais tarde Whitefield escreve uma carta privada de resposta, aqui temos de nos lembrar que isto é num tempo em que não existiam as comodidades de meios de comunicação digitais, esta carta mais tarde foi publicada.

Whitefield fala acerca do hábito de John de procurar direcção divina pelo lançamento de sortes, hábito este que mais tarde Wesley viria a admitir que esteve errado em pelo menos uma ocasião.

Após este ponto introdutório, Whitefield prossegue em analisar os pontos levantados por John no seu sermão, na minha opinião ele aponta a escolha do texto bíblico foi infeliz pois Romanos 8 é um texto central para a defesa de uma soteriologia monergística que ele não aludiu à passagem uma única vez no curso do sermão.

Daí ele parte para dar uma resposta ao primeiro ponto das criticas de Wesley, acerca da futilidade da pregação Calvinista, que o efeito produzido é o contrário que como não sabemos quem são os eleitos ou os réprobos devemos pregar a todos promiscuamente. Ele subsequentemente vai ponto por ponto responder a todos os pontos levantados por John.

Whitefield conclui a sua carta com o seguinte: “Prezado senhor, pelo amor de Jesus Cristo, considere como você desonra a Deus, negando a eleição. Você claramente faz a salvação depender não somente da livre graça de Deus, mas do livre-arbítrio do homem; e se assim, isto é mais do que provável, Jesus Cristo não teria tido a satisfação de ver o fruto de Sua morte na salvação eterna de uma alma. A nossa pregação seria, então, vã, e todos os convites para as pessoas crerem nele também seriam em vão. Mas, bendito seja Deus, nosso Senhor sabia por quem Ele morreu.

O Que Estava em Jogo?

Obviamente, o que estava aqui em causa é exactamente o que causou o Sínodo de Dordt um século antes, Wesley estava a defender e propagar os ideais “Remonstrantes”.

Também deve ser dito que uma das motivações de Wesley foi a sua vontade de se desassociar do puritanismo que tinha caído em má reputação derivado à guerra civil e consequente reinstauração da monarquia. Nas mentes inglesas da altura puritanismo estava associado a ideias radicais. O biografo Iain Murray também vê no sermão de Wesley o zelo dele em combater o Antinomianismo, para Wesley a ideia da doutrina da Eleição apenas poderia terminar em Antinomianismo.

A realidade aqui é que nenhum deles eram teólogos sistemáticos, eles eram pregadores preocupados com salvação de almas, e o que os fez cruzar as suas espadas não foi o querer ganhar a medalha de melhor teólogo foi o amor pelas almas perdidas. Ambos concordavam acerca da meta a atingir, tinham era perspectivas diferentes de como atingi-la.

Rescaldo e Conclusão

Na minha opinião, a carta de Whitefield não os separou definitivamente. Apesar de não poderem trabalhar mais juntos o respeito mútuo manteve-se. A certa altura perguntaram a Whitefield se veríamos Wesley no Paraíso ao que ele respondeu: “Temo que não o veremos, pois irá estar tão perto do Trono Eterno e nós tão longe, que dificilmente o veremos”.

Wesley pregou no funeral de Whitefield a pedido do próprio, na eulogia ele declarou Whitefield como um “Campeão de Deus que insistia nos essenciais da fé”

Eu creio que a carta de Whitefield causou em Wesley um moderar nas suas posições anti-Calvinistas. Entre outras coisas em 1745 nas actas da 2ª conferência no The Foundry em Londres está registado que a sua posição em relação ao Calvinismo estaria separada apenas por um cabelo, uma outra prova significante é que Wesley evitou pregar novamente ou republicar este sermão daí em diante.

Para nós este episódio da história importa porque nele vemos ilustrado como irmãos em Cristo se devem comportar quando estou em desacordo, em uma era em que muitos tentam “destruir” outros nas redes sociais, tentando conquistar para si o titulo de “mito”.

“Concordar em Discordar” não é uma invenção pós-moderna de uma sociedade relativista, é um valor cristão (Rom. 14). Foi o próprio Whitefield que cunhou o adágio “Agree to Disagree” em 1750.

Estes dois homens ilustram para nós como discordar para a Glória de Deus, eles não se prenderam em argumentos intermináveis e com ataques uns atrás dos outros. Eles não publicaram bibliotecas de livros a debater estes assuntos. Eles continuaram a fazer aquilo para o qual haviam sido chamados pregar o Evangelho. embora tenha ficado magoada e as cicatrizes serem visíveis, a amizade de ambos não cessou.

Bibliografia

Atherstone, A., & Goddard, A. (2015). Good Disagreement?: Grace and Truth in a Divided Church. Oxford: Lion Books.

Bennet, D. (n.d.). How Arminian was John Wesley. Retrieved from Biblical Studies: https://biblicalstudies.org.uk

Griffiths, L. (n.d.). What have the sermons of John Wesley ever done for us? Free Grace – Theology with gloves off. The Journal of Wesley House Cambridge.

Murray, I. (2003). Wesley and Men Who Followed. Bath: Banner of Thruth.

Reist, I. (n.d.). John Wesley and George Whitefield – A Study in the Integrity of Two Theologies of Grace. Retrieved from Biblical Studies: https://biblicalstudies.org.uk

Wesley, J. (1770). On the Death of the Rev. Mr. George Whitefield. London.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s