Em termos gerais, a teologia sistemática é o estudo da doutrina bíblica concebida para nos ajudar a moldar uma visão de mundo adequada – o que James Sire definiu como “um compromisso, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expressa como uma história num conjunto de pressupostos … que defendemos … sobre a constituição básica da realidade, e que fornece a base sobre a qual vivemos e nos movemos e temos o nosso ser”.

A teologia sistemática parte do princípio de que a Bíblia é a realidade e assume a unidade das Escrituras enquanto afirma a revelação progressiva e o desenvolvimento da história redentora no cânon. Na teologia sistemática, procuramos responder à pergunta: O que a Bíblia inteira diz sobre x? Como é que a nossa passagem se harmoniza teologicamente com toda a Bíblia, ou quais são as doutrinas para as quais esta passagem contribui?

Categorias da Teologia Sistemática

Tradicionalmente, a teologia sistemática divide-se em pelo menos dez categorias:

1.           Teologia propriamente dita: esta é a doutrina de Deus.

2.           Bibliologia: a doutrina da Escritura

3.           Angelologia: a doutrina dos anjos e demônios

4.           Antropologia: a doutrina da humanidade

5.           Hamartiologia: a doutrina do pecado

6.           Cristologia: a doutrina de Cristo

7.           Soteriologia: a doutrina da salvação

8.           Pneumatologia: a doutrina do Espírito Santo

9.           Eclesiologia: a doutrina da Igreja

10.         Escatologia: a doutrina do fim dos tempos ou das últimas coisas

Os diferentes grupos teológicos dentro da igreja surgem de diferentes perspectivas sobre cada um destes temas. Por exemplo, calvinistas e arminianos discordam sobre teologia propriamente dita, antropologia, hamartiologia e soteriologia. Complementaristas e egalitaristas diferem em antropologia e eclesiologia. Os aliancistas clássicos, os aliancistas progressivos e os dispensacionistas divergem principalmente sobre a eclesiologia e a escatologia. E as distinções políticas relacionam-se principalmente com a eclesiologia.

Triagem Teológica

É importante reconhecer que nem todas as questões doutrinárias têm o mesmo peso. Assim como Jesus disse que a lei abordava alguns assuntos que eram “mais pesados” que outros (Mt 23:23), assim também Paulo enfatizou que o evangelho que ele pregava era de primeira importância (1Co 15:3). Outros ensinamentos são importantes, mas nada é mais fundamental do que as Boas Novas através de Jesus – o Messias divino, crucificado e ressuscitado – as Boas Novas de que através dEle, Deus reina em geral e que Ele salva e satisfaz os pecadores crentes.

Albert Mohler chamou a avaliação de diferentes doutrinas como uma “triagem teológica”. O termo “triagem” é frequentemente usado em contextos médicos para abordar a atribuição de níveis ou urgência a ferimentos ou doenças, a fim de decidir a ordem de tratamento de um grande número de pacientes ou feridos. Na teologia sistemática, a triagem teológica envolve avaliar aquelas doutrinas que requerem a maior atenção da igreja, e para o pastor ocupado, significa determinar quais elementos de uma determinada passagem são primários e quais podem ser mais secundários ou terciários.

Questões Primárias

Questões Primárias: Estas são as áreas de doutrina que são mais centrais e essenciais para o Cristianismo. Você não pode negar estas questões e ainda ser um cristão. Mohler inclui aqui doutrinas como a Trindade, a deidade plena e humanidade de Jesus Cristo, justificação pela fé, e a autoridade das Escrituras.

Questões Secundárias

As questões secundárias são geralmente aquelas que distinguem as denominações e as igrejas locais. Estas são questões que comummente despertam o mais alto nível de debates que geralmente são fundamentados em alguma forma de interpretação bíblica e que geram fronteiras razoáveis entre cristãos. Mohler inclui entre estes as doutrinas do significado e modo do baptismo e opiniões sobre o papel das mulheres no lar e na igreja. A estas eu acrescentaria a questão da soberania de Deus na salvação e do divórcio e do novo casamento. As diferenças de nível dois não identificam alguém como cristão, mas a maioria das igrejas locais lutarão se seus líderes discordarem sobre esses tipos de assuntos.

Questões Terciárias

Chegamos agora às questões do terceiro nível. Estas são aquelas doutrinas sobre as quais os cristãos podem discordar e facilmente permanecer em estreita comunhão, mesmo dentro de uma congregação local. Às vezes, estas são questões de consciência ou prática, como os cristãos devem participar do Halloween? Outras vezes, são assuntos de simples disputa que têm pouca influência na vida cotidiana de alguém. Mohler inclui entre essas questões milenares e aquelas relacionadas com o tempo e a ordem do retorno de Cristo.

Dizer que certas doutrinas são mais importantes que outras não implica que os cristãos possam tomar qualquer verdade bíblica com menos do que a plena seriedade. Não há doutrinas insignificantes, mas há certas doutrinas que são mais fundamentais, mais basilares, do que outras e que sustentam e informam todo o sistema da verdade bíblica.

Distinções chave entre a Teologia Bíblica e a Teologia Sistemática

Ao concluir este artigo, pode ser útil identificar as principais distinções entre a teologia bíblica e a teologia sistemática. Para mais informações sobre estas diferenças, você poderia ler o texto de D. A. Carson entitulado “Teologia Sistemática e Teologia Bíblica” no Novo Dicionário de Teologia Bíblica. Vamos ver este esquema onde eu comparo as duas disciplinas.

Base da Autoridade

A base da autoridade em teologia bíblica e em teologia sistemática é exatamente a mesma: a Escritura Canônica.

Princípios de ordenação

Como é que eles ordenam os seus princípios? Aqui vemos divergência. A teologia bíblica é orgânica, histórica, canônica. É também inductiva e comparativa, e é tão diacrónica quanto possível, traçando a história da salvação que enquadra toda a Escritura. Em contraste, a teologia sistemática é a-histórica e universal. É tópica, lógica, hierárquica e o mais sincrônica possível.

Missão e Formato

E quanto à missão e formato de cada uma das disciplinas? A teologia bíblica é inductiva e descritiva. Ela obtém seu poder normativo através da credibilidade de seus resultados. Está um pouco mais distante da cultura, mas está mais próxima da maneira como o texto bíblico fala por si só. A teologia bíblica busca a racionalidade e o gênio comunicativo de todo gênero literário ou unidade canônica.

Então e a teologia sistemática? Na teologia sistemática, há uma re-articulação do que a Bíblia diz com uma mente voltada para o envolvimento e o confronto com a cultura. É um pouco mais próxima da cultura com maior influência em todas as outras áreas de estudo. A nossa teologia sistemática – o que acreditamos sobre Deus e sobre a Sua Palavra, sobre Jesus – influencia a nossa exegese; influencia a nossa teologia bíblica. E também é importante devido à sua natureza modeladora da visão do mundo. A teologia sistemática integra as diversas racionalidades da Bíblia em sua busca de um panorama mais amplo.

A Natureza

E quanto à natureza de cada disciplina? A teologia bíblica é, sem dúvida, uma disciplina que nos faz sair da exegese e nos leva a ter uma visão mais ampla do que a Bíblia está dizendo. Em contraste, a teologia sistemática é uma disciplina culminante. Ela acaba com a nossa compreensão, levando-nos a sintetizar (empacotar) material como doutrina.

Enquanto trabalhamos através da nossa passagem, não deixemos de perguntar como ela é teologicamente coerente com toda a Bíblia e que doutrinas ela aborda.

A Relação entre Teologia Bíblica e Dogmática

Um último tema a ser discutido diz respeito à relação deste modelo de Teologia Bíblica com a disciplina da teologia dogmática ou sistemática. Muito tem sido escrito nos últimos anos respeitando esta questão (cf. Rahner, Schlier, Hasel, etc.). O problema é complexo e controverso porque o conceito de teologia dogmática está atualmente tão em evolução quanto a teologia bíblica. É também uma questão de quanto se ganha com a precisão teórica quando a relação prática é em grande parte formada pelo treinamento diverso desses dois grupos de estudiosos. Os estudiosos bíblicos modernos geralmente sabem pouco sobre dogmática, enquanto que os teólogos sistemáticos são treinados na Bíblia (cf. o prefácio de Schillebeeckx).

Como é bem conhecido, a relação entre as duas disciplinas passou por fases diferentes. Houve a luta inicial da Teologia Bíblica pela independência da dogmática, seguida por um período de hostilidade e desconfiança mútua, até uma etapa de coexistência separada e incerta (cf. Hasel, 115). Claramente o que se exige agora é uma cooperação frutuosa, não só entre estes dois campos, mas entre uma grande variedade de outras disciplinas que se impõem ao estudo da Bíblia, como a erudição filosófica, literária e histórica.

Devido à formação inicial e ao interesse dos estudiosos bíblicos, o peso da sua contribuição continuará concentrado em grande parte na descrição e interpretação de textos bíblicos. Por outro lado, teólogos sistemáticos trazem uma variedade de ferramentas filosóficas, teológicas e analíticas que são geralmente informadas pela história da teologia e que são inestimáveis em relacionar o estudo da Bíblia com o assunto da vida cristã no mundo moderno. Se houver alguma sobreposição na abordagem, isto só pode ser bem recebido como um benefício.

Em suma, nesta conjuntura, provavelmente um pouco mais de precisão em teoria é necessária, a não ser para exortar os estudiosos bíblicos a serem mais sistemáticos, e os teólogos sistemáticos a serem mais bíblicos, e a prosseguirem com a tarefa. O teste final do sucesso da cooperação entre os dois campos está no grau em que o texto bíblico e o seu assunto são iluminados. Nem a teologia bíblica nem a teologia dogmática são um fim em si mesmas, mas permanecem ferramentas úteis para permitir um novo acesso à voz viva de Deus na Sagrada Escritura.

Fonte:

DeRouchie, J. S. (2016). BI205 Old Testament Exegesis: Understanding and Applying the Old Testament. Bellingham, WA: Lexham Press.

Childs, B. S. (2011). Biblical Theology of the Old and New Testaments: Theological Reflection on the Christian Bible. Minneapolis, MN: Fortress Press.

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