Como deve, então, a igreja relacionar-se com o Estado?

A igreja, enquanto é uma assembleia de peregrinos, é também uma embaixada do reino de Cristo, representando a autoridade de Cristo. Pelo seu comando, a igreja ensina os cristãos a estarem sujeitos ao Estado. Devemos entregar a César o que é de César (Mc. 12:13-17; Tito 3:1; Rom. 13:1-2). Isto não é uma opção ou uma estratégia, mas uma obrigação. Deus ordena o governo para estabelecer os seus propósitos (Rm. 13:3-4). Como todos os outros, os cristãos beneficiam da ordem que os governos trazem. De facto, a nossa tarefa evangelística é ajudada pela paz civil (1 Tim. 2:1-7), tal como a pax Romanum ofereceu a Paulo oportunidades para as suas viagens. O nosso serviço a Deus inclui a obediência à autoridade civil (Rom. 12:1-2; 13:1-2).
O facto de os governos serem autorizados por Deus não garante que as suas acções sejam justas. A profecia de Daniel compara os impérios mundiais a bestas que se erguem do mar; o livro do Apocalipse também descreve o governo pagão como uma Besta ameaçadora (Apoc. 13-14).

A obediência cristã ao Estado não pode e não deve ser cega. Quando o estado ordena o que Deus proíbe, ou proíbe o que Deus ordena, devemos obedecer a Deus e não aos homens (Actos 5:29). Jesus avisou os seus discípulos que eles iriam sofrer perante os magistrados por causa dele (Mc. 13:9).
Os cristãos são necessariamente chamados a sofrer perseguição de estado em silêncio. Jesus chamou Herodes de “aquela raposa” (Lc. 13:32); João Baptista repreendeu o mesmo notório rei pelo seu casamento incestuoso (Mc. 6:18); Paulo repreendeu contra procedimentos ilegais na sua audiência perante o Sinédrio – apesar de ter pedido desculpa por chamar o sumo sacerdote de “parede esbranquiçada”, por causa do respeito devido ao seu ofício (Actos 23:3). O cristão pode criticar, mas deve sempre estar perante um magistrado com mansidão e respeito, para dar uma razão para a esperança que está dentro dele ou dela (1 Pedro 3:15).

Igreja, família, sociedade e estado

A igreja testemunha a justiça do reino, penetrando na sociedade como fermento ou sal, mas não é identificada com o mundo em que toca. A igreja não é competitiva nem correlativa com a família, com o Estado, ou com outras instituições da sociedade. Estas são as formas de vida no mundo, das quais a igreja se distingue.

A Igreja como instituição não tem par ou concorrente neste mundo.

É um erro supor que a igreja invisível encontra expressão institucional não só na igreja visível, mas também na família, no estado e em vários grupos da sociedade. A igreja é a forma que Cristo designou para a comunidade daqueles que confessam o seu nome; só na igreja, o corpo de Cristo é tornado visível neste mundo.
Nos tempos patriarcais, o reino era ordenado na forma da família; mais tarde teve a forma de um estado (Israel); agora tem a forma exterior de uma instituição da sociedade. Em cada caso, contudo, a forma que Deus nomeou tem claras diferenças em relação às instituições seculares que se lhe assemelham. O Senhor anulou as estruturas patriarcais da família para escolher o herdeiro da promessa (Isaac, Jacob, e depois José). Mais tarde, a aliança de Deus no Sinai criou uma nação única e peculiar, moldada pelas leis de Deus e sob o seu governo. O Senhor limitou a expansão de Israel e barrou tratados com outras nações que negariam a sua distintiva base teocrática. Ademais, oo contrário de outras sociedades ou instituições voluntárias, a igreja não é livremente organizada pelos seus constituintes, mas, tal como a família patriarcal e a nação da aliança, é teocrática na sua estrutura básica.

A igreja no mundo

Ao longo da história da redenção, as formas que Deus designou para a sua igreja mostram a continuidade do desenvolvimento. A família não está ultrapassada ou dissolvida, mas atraída para a comunidade eclesiástica; o relacionamento familiar é transformado dentro de uma família espiritual, a chamada comunhão dos santos. Embora Deus julgue Israel, ele não abandona a sua aliança. Paulo mostra a continuidade do Antigo Pacto com o Novo, usando a imagem orgânica da única oliveira da qual os ramos naturais são quebrados e para a qual os ramos selvagens são enxertados (Rom. 11:16-21). Enquanto “nem todos os que descendem de Israel são Israel” (Rom. 9:6), a Igreja continua o verdadeiro Israel de Deus, a circuncisão real e espiritual prometida pelos profetas (Fil. 3:2-4; Ef. 2:11-22).

A continuidade não significa, contudo, identidade, pois a renovação e o cumprimento das profecias requerem mudança. Embora a igreja seja tanto uma família como uma nação no sentido espiritual, ela não tem a forma de uma família patriarcal, ou toma o seu lugar como uma nação cristã entre as nações do mundo. Como família de Deus, ela modela o amor de Cristo nos laços mais próximos das relações humanas; como nova humanidade de Deus, ela repreende o orgulho e a intolerância do nacionalismo moderno, mostrando uma unidade que transcende as distinções culturais e étnicas. Não importa quão tragicamente a igreja possa não demonstrar o amor santo do reino, o seu mandato permanece.

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