As igrejas de hoje estão num dilema quanto à forma como devem se envolver no processo político. Muito se tem falado sobre a “separação da igreja e do estado”. Alguns têm defendido uma posição militante contra o mal sócio-político; outros têm argumentado que o trabalho da igreja é pregar o evangelho, e por isso a igreja deve evitar a política por completo.

A tarefa da igreja está definida na Grande Comissão, que envolve não só baptizar, mas também discipular, “ensinando-os a observar tudo o que vos tenho ordenado” (Mat 28,20). Deus não deu a espada à igreja; a nossa única arma é a espada do Espírito, a Palavra de Deus. Mas a Palavra de Deus fala acerca de todos os aspectos da vida humana (1 Cor. 10:31).

A Grande Comissão não limita a igreja à pregação de um evangelho simples, a forma de escapar ao julgamento divino. Pelo contrário, a pregação da igreja apresenta ao mundo um modo de vida que transforma tudo, incluindo a política. Os cristãos não são salvos, é claro, pela acção política. Mas devem trazer consigo a sua fé para as suas famílias, para os seus locais de trabalho e para a sua política.

É claro que em algumas culturas (como a antiga romana, na qual o Novo Testamento foi escrito) não há muito que os cristãos possam fazer, para além de orar, para influenciar as estruturas políticas e as leis promulgadas. Mas quando podem influenciá-los, devem fazê-lo. Nas democracias modernas, todos os cidadãos votantes são de certa forma “magistrados menores” em virtude das urnas eleitorais. Os cristãos têm a obrigação de votar de acordo com os padrões de Deus.

E, quando são capazes e chamados para tal, deveriam influenciar outros a votar da mesma forma.

Isto não quer dizer que as escolhas políticas sejam sempre óbvias. Muitas vezes temos de escolher o menor de dois males. O candidato Fulano pode ter uma perspectiva melhor sobre uma questão do que o candidato Cicrano, enquanto o Cicrano tem uma perspectiva melhor sobre uma questão diferente. É uma arte pesar a importância das diferentes questões e chegar a uma conclusão piedosa.

Cada um de nós deve ter uma grande tolerância para com outros cristãos que chegam a conclusões diferentes das nossas. Raramente uma questão irá superar todas as outras, embora deva dizer que nunca irei votar num candidato que defenda ou facilite o assassinato de crianças por nascer.

Mas e a igreja institucional? Deverá a igreja, enquanto igreja, alguma vez tomar posições sobre questões políticas? Bem, certamente, para muitas questões “políticas” são questões simples de moralidade. Se a igreja deve pregar toda a Palavra de Deus, deve pregar contra o aborto, homossexualidade, relativismo, e assim por diante.

A pregação ética e, portanto, política, torna-se problemática quando estão envolvidas questões específicas. A pregação, tal como a teologia, é a aplicação da Palavra a situações da nossa própria experiência. Devemos pregar, não só que roubar é errado, mas que é errado que o João roube a Maria. Mas a especificidade introduz novos níveis de dificuldade.

Quando as questões se tornam mais específicas, torna-se muitas vezes mais difícil ter a certeza da posição bíblica. Certamente a igreja deve opor-se à condução sob o efeito do álcool, por exemplo. Mas deverá a igreja apoiar uma lei que reduza o limite de teor de alcool para 0.000%?

Mas noutros casos específicos, as aplicações são tão claras que não há lugar para dúvidas. Por exemplo, se o José agredir o Manuel, ele deve pagar a penalidade legal. Se o aborto é homicídio, então os não nascidos devem ser protegidos por lei.

Em certos casos mais “cinzentos”, deveríamos ter relutância em aplicar a Palavra de Deus a questões políticas, devido à nossa própria incerteza. Mas não há forma de delinear com precisão e antecipadamente quando e onde devemos e não devemos exercer tal relutância.

Outro perigo, claro, é que as igrejas fiquem tão presas ao activismo político que percam de vista Cristo. A solução não é evitar questões políticas, mas ver a política como Kuyper fez, como uma oportunidade para promover as reivindicações do Rei Jesus. É também importante que a mensagem da igreja, incluindo as suas declarações “políticas”, exalte a graça de Cristo. A graça não é apenas o centro da Palavra de Deus, mas um elemento vital da nossa comunicação, mesmo da lei.

Penso que raramente é útil promover um determinado candidato do púlpito, porque poucos candidatos são inteiramente bons.

Com algumas excepções, os cristãos devem concordar em discordar uns com os outros em amor no que diz respeito a assuntos políticos. Mas há situações extremas em que as diferenças entre candidatos são claramente diferenças entre o bem e o mal. Imaginemos que Hitler estivesse a concorrer ao cargo de Presidente, por exemplo, creio que os pregadores cristãos deveriam opor-se-lhe do púlpito. Assim, Deus não proíbe a igreja de entrar mesmo nas áreas mais específicas do debate político, mas a sabedoria deveria muitas vezes levar à contenção.

DESOBEDIÊNCIA CIVIL E REVOLUÇÃO

Dado que os cristãos, e mesmo as igrejas, têm o direito de procurar uma mudança política, será que alguma vez têm o direito de desobedecer aos governantes políticos existentes – ou mesmo de se rebelar contra eles?

A posição geral dos cristãos, como Calvino eloquentemente assinala nos últimos capítulos das Institutas, deveria ser de submissão obediente, mesmo a governantes injustos e cruéis. Romanos 13:1-7 e 1 Pedro 2:13-17 são decididamente anti-revolucionários na sua ênfase.

Mas, como Calvino também sublinhou, com Rutherford e mais tarde com outros escritores Reformados, há limites à obediência política:

  • Quando o governante nos obriga a pecar contra Deus, ou proíbe algo que Deus ordena, devemos recusar
  • Em alguns casos, especialmente em situações de emergência, é necessário violar as leis escritas de modo a atingir fins sociais mais elevados.
  • Na grande maioria dos sistemas de direito no Ocidente, a única forma de estabelecer a inconstitucionalidade de uma lei é por meio de um caso de teste. Alguém deve infringir essa lei, submeter-se a julgamento, e depois utilizar como defesa que a lei é inconstitucional. Tal violação da lei em caso de teste não é uma violação do sistema global da lei, mas sim uma tentativa de purificar o sistema através da eliminação de legislação inadequada.
  • Quando o próprio governante viola a lei (um aspirante a ditador por exemplo), não está imune à lei. Os “magistrados menores” devem fazer cumprir a lei contra ele. Se a lei exigir que ele abandone o cargo, deve ser obrigado a fazê-lo. Se a destituição desse governante em tais condições exigir força, então a força deve ser utilizada. Se isso acontecer, uma espécie de revolução teve lugar, e os cristãos podem apoiá-la.
  • Por vezes não é claro quem são “as autoridades governantes” de Romanos 13:1. Por exemplo, durante a Guerra do Vietname houve lugares onde o governo de Saigão controlava o território de dia e os Vietcongs controlavam-no de noite. Em tais casos, a quem é que o cristão deve “estar sujeito”? Perguntas sobre que grupo tem o direito de governar podem ser difíceis de resolver, tal como os julgamentos sobre quem é susceptível de vencer o conflito. Eu diria que um cristão que vive em tais áreas deve fazer o seu melhor juízo sobre qual o exército em disputa que está mais de acordo com os padrões de justiça de Deus e dar-lhes a sua lealdade. Mas ao fazê-lo, ele pode encontrar-se a apoiar aquilo a que alguns poderiam chamar um movimento revolucionário.
    Em alguns sistemas nacionais o poder é partilhado entre governo federal e governo estadual, se eles estiverem em conflito? Quem deve o cristão apoiar?
    E se uma força de autoridade policial nos mandar fazer algo que é claramente contra a lei ou inconstitucional?

Em algumas circunstâncias, então, os cristãos podem encontrar-se a apoiar os movimentos revolucionários. Mas o seu objectivo deve ser sempre o estabelecimento de um governo estável que possam honrar em termos daqueles delineados no quinto mandamento, dando o seu respeito, submissão, e apoio financeiro a esse governo

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