O livro de Apocalipse é sem sombra para qualquer duvida o livro mais complicado de interpretar em todo o Novo Testamento. Talvez a maior razão pela qual achamos complicado é a falta de experiência que temos em ler este género literário. Ler o livro de Apocalipse é muito semelhante a visitar um país estrangeiro numa era ou período histórico que não o nosso, tudo parece diferente.

Qual é o género literário de Apocalipse?

É reducionista da nossa parte tentar rotular Apocalipse como sendo “literatura apocalíptica” pois ele combina elementos literários de pelo menos três géneros diferentes: Epistola (Apo. 1:4), Profecia (1:3) e Apocaliptica (1:1). Nenhum outro livro combina elementos destes generos literários como o Livro de Apocalipse combina.

O primeiro genero é talvez o que nós estamos mais familiarizados com:

  1. Epistola. Apesar de Apocalipse ser uma carta circular “às sete igrejas que estão na Ásia” o seu conteúdo e estilo é peculiar e diferente das 21 outras epistolas no novo testamento.
  2. Profecia. Ao contrário de literatura apocalíptica, na literatura profética, profetas proclamam directamente uma mensagem de Deus e Deus salva o seu povo por processos “naturais” deste mundo sem romper com a ordem natural das coisas ao contrário da apocalíptica onde salvação é vista como uma instauração de uma nova ordem-criação. Como outras passagens na Bíblia (Daniel, Isaías, Zacarias, Mateus 24-25) o livro de Apocalipse contem elementos de ambos os géneros de tal forma que é complicado distingui-los
  3. Apocalíptica. Este é talvez o menos conhecido dos 3 géneros. Existem 6 características gerais deste género literário na antiguidade
    1. É uma resposta a perseguição e/ou opressão
    2. Pretende relatar mistérios celestiais que um anjo ou um outro tipo de entidade celestial revelou
    3. É pseudónimo, uma obra pseudónima tem um nome (-onima) falso (pseud-), literatura apocalíptica judaica por exemplo incluía nomes de grandes figuras do passado (Adão, Moisés, Enoque etc.)
    4. Culmina com o despontar de uma nova ordem ou nova criação.
    5. Usa simbolismo extensivamente na narrativa
    6. Tem uma distinta concepção dualista da história, isto é, o contraste entre o presente mundo e o mundo por vir. Alguns estudiosos chamam a isto escatologia apocalíptica

O Livro de Apocalipse não é apocalíptico em sua inteiridade, primeiro o Apocalipse não é pseudónimo (O seu autor é João), e segundo porque o fundamento da esperança no livro de Apocalipse é no sacrifício de Cristo, um evento no passado e não no futuro. No entanto muitos estudiosos devido a Apocalipse ter muitas das caracteristicas, referem-se ao livro como sendo apocalíptico.

Então qual é o género literário do livro? Eu diria que é profecia apocaliptica na forma de uma epistola, ou então, uma “epistola profetaliptica”

Vamos endereçar a pergunta do titulo então, como devemos interpretar o Livro de Apocalipse?

Quatro principios chave:

  1. Compreender as diferentes escolas interpretativas, existem cinco:
    • Preterista. As visões de João são descrições de eventos nos seus próprios dias, e portanto são agora passado. Os símbolos das visões de João referem-se a eventos e pessoas nos dias de João, e ele escreveu Apocalipse para exortar os cristãos do seu tempo a perseverar
    • Historicista. Apocalipse é um esboço da história da Igreja, desde da sua fundação até aos últimos dias (geralmente interpretados como sendo o presente). Por esta razão é que os reformadores identificavam a besta com o papado romano.
    • Idealista. Apocalipse não é nem um relato do passado nem um mapa ou calendário para o futuro. Apocalipse é intencionado a ajudar os cristãos de todas as gerações a perceber quem e como Deus é e como ele interage com o mundo
    • Futurista. Deus irá concretizar tudo que está relatado dos capitulos 4-22 nos ultimos dias da história humana. Algumas outras sub-escolas mais moderadas defendem que algumas das coisas relatadas nos capitulos 4-22 já aconteceram ou irão ocorrer antes dos dias do fim.
    • Ecleticista. A abordagem ecleticista como o nome indica é uma mistura de dois ou mais elementos das outras 4 abordagens
  2. Compreeder a estrutura literária do livro. Isto obviamente é matéria de debate, de facto a discussão acerca de estrutura está intimamente e inseparavelmente ligada com o debate das escolas de interpretação que falamos no primeiro ponto. As duas estruturas básicas mais comummente defendidas são (obviamente estou a hipersimplificar de forma a manter a brevidade do artigo):
    • Cronologia. O livro tem 3 partes cronológicas que correspondem a Apo. 1:19 “Escreve as coisas que tens visto (1), e as que são (2), e as que, depois destas, hão-de acontecer (3) As 3 partes correspondem passado (Apo. 1), presente (Apo. 2-3), futuro (Apo. 4-22)
    • Recapitulação. O livro não segue uma ordem cronológica estrita, o livro repete (recapitula) os mesmos temas básicos de angulos diferentes
  3. Compreender os diferentes pontos de vista e pontos de debates acerca de escatologia. O truque aqui é compreender e deixar que isso informe a nossa interpretação sem deixar que a nosso sistema escatológico ofusque ou se sobreponha ao conteúdo teológico do livro. Por exemplo, a discussão em torno do milénio (Apo. 20) é proveitosa e eu diria mesmo importante para entender o Premilenismo (Jesus retorna antes do Milénio) o Pósmilenismo (Jesus retorna após o Milénio) e o Amilenismo (O Milénio é entre a ascensão e retorno de Cristo). Estas discussões devem ser tidas, MAS, MAS, MAS isto não nos deve distrair do foco, nem deve-se tornar mais importante que a mensagem central do livro. O Cordeiro irá consumar o seu Reino para a Glória de Deus, salvando o seu povo e derrotando os seus inimigos. Deus vencerá! O propósito do livro de Apocalipse não é entreter, ou confundir, ou causar intriga ou até mesmo dar-nos um programa detalhado do futuro. O livro de Apocalipse é para confortar, encorajar e exortar Cristãos dando a estes um ponto de vista celestial das dificuldades presentes ou futuras. Eu gosto de debater as minúcias tanto quanto o meu próximo, mas mantenhamos vigilância para não nos distrairmos.
  4. Interpretar a simbologia de forma sensata. Por ultimo, simbologia é um tema delicado e portanto requer sensatez, sensibilidade e moderação. Uma maneira de realizar isso é compreender que praticamente todos os símbolos em Apocalipse apontam para o Antigo Testamento. Por tanto para interpretar Apocalipse correctamente é necessário fazer essas ligações com o Antigo Testamento. Ademais, símbolos são precisamente isso: símbolos, sinais. Eles estão lá em representação de algo diferente, eles estão lá para representar realidade de forma figurada. É por tanto parvo e idiótico toma-los de forma literal. Alguns símbolos seriam grotescos até se tomados desta forma (e.g. uma espada a sair da boca de Jesus Apo. 19:15). Não muito longe da igreja que pastoreio existe um sinal que diz “Buckingham Palace”, o sinal não é o palácio, o sinal aponta para a realidade que o palácio está perto, seria estúpido ficar especado a olhar para o sinal como que se estivéssemos a olhar para o palácio em si. Não percamos tempo a contemplar o sinal ou a pensar que o sinal é a realidade para a qual ele aponta, sigamos o sinal para a realidade majestosa para o qual ele nos indica.

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